Saci-pererê
Hoje (no dia em que
escrevo este texto) é o Dia das Bruxas (Halloween) e, aqui no Brasil, foi
instituído, através de projeto de lei federal, em 2003, o Dia do Saci, com o
intuito de resgatar o folclore brasileiro, o que eu acho extremamente louvável.
A única discordância que tenho é a ideia de competir com a comemoração do
Halloween, o que eu penso ser uma tolice. O saci merecia um dia só para ele, e
não ser uma espécie de alternativa, um objeto de propaganda do tipo “Dê preferência
aos produtos nacionais”. Ele é esperto e inteligente. É uma das figuras mais
interessantes e simpáticas do folclore nacional, sendo também, por vezes,
assustadora.
O saci (Çaa Cy ‒
olho mau; pérérég ‒ saltitante) é um elemental, um duende ou diabrete que, em
termos de comportamento, pode ser comparado aos trolls escandinavos, aos
gremlins saxões e os djinn muçulmanos. É um espírito brincalhão, malicioso, que
passa as noites pregando peças e irritando e cansando os humanos. O fenômeno
poltergeist, que de acordo com algumas correntes ocultistas é provocado por
elementais, bem que poderia ter a participação de sacis, pois, entre as
traquinagens mais características deles, estão deslocar objetos, dar sumiço
neles, fazer bagunça, espalhar sujeira pela casa, estragar comida, furtar
carvão, furtar comida, fazer barulho (apitar usando o cachimbo e dar pancadas
nas paredes e móveis, os famosos raps já identificados pela parapsicologia) e
irritar os animais domésticos e de pasto ‒ há quem diga que eles fazem tranças com
nós complicados de se desmanchar nas crinas dos cavalos e que os montam,
fazendo com que os pobres animais fiquem nervosos e galopem durante toda a
noite, até a exaustão (o fenômeno dos cavalos guiados, muito comentado nas
regiões interioranas. Eu já tive a oportunidade de presenciar, numa ilha, esses
cavalos que parecem ter em seus lombos um cavaleiro invisível, é intrigante e
assustador. Tenho uma parenta que viveu em um sítio, durante muitos anos, e que
me contou que seu cavalo, de tempos em tempos, amanhecia com a crina toda
embolada. A culpa, segundo ela, era do saci. “Eles fazem isso, é coisa de saci”,
ela dizia.). Haveria, inclusive, segundos alguns folcloristas, uma atividade
vampírica da parte dos sacis, que seria sugar um pouco de sangue dos cavalos, o
que é uma coisa bastante curiosa, já que eu nunca havia associado o vampirismo
de sangue com os elementais (o vampirismo energético, sim). Só recentemente eu
li a respeito de alguns elementais escoceses e irlandeses que são também
vampiros e até mesmo antropófagos (ou necrófagos em alguns casos, como as lâmias
e os ghouls). Assim como os djinn, o saci é capaz de conceder desejos, desde
que alguém consiga roubar sua carapuça, o que ele faz para consegui-la de
volta. Os sacis também provocam redemoinhos de vento e parecem se divertir
muito com isso.
Ele surge, aqui no
Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, como um pássaro misterioso
e de mau agouro (saci-pererê ou mati-taperê), que confunde o caçador, fazendo
com que este se embrenhe na mata, cada vez mais, à sua procura, e se perca. O
caçador ouvia o canto de um ponto próximo e, quando chegava perto da folhagem
onde a criaturinha deveria estar pousada, conforme a indicação do som, o
passarinho voltava a cantar, só que à distância. Isto lembra uma assombração dos folclores
indonésio e malaio, a Kuntilanak: dizem que, quando seu canto está próximo, ela
está distante, e vice-versa.
Posteriormente, já
no século XVII, na região Sul, ele adquire características do caapora e do curupira,
os caboclinhos protetores das plantas e dos animais, transfigurando-se naquela
figura do folclore que todos conhecem, ou seja, num humanoide preto, de uma só
perna, que anda pelado, com um gorro ou barrete vermelho na cabeça, e com as
palmas das mãos furadas (característica de uma assombração portuguesa conhecida
como pesadelo). Alguns autores descrevem-no ciclópico (com apenas um olho,
grande, localizado no meio da testa), outros, com olhos pequenos e vermelhos,
como os de um roedor albino.
O saci nasce e vive
em bambuzais. Gosta de fumo, de café e de doces, o que o liga a algumas entidades
de cultos afro-brasileiros, que também são elementais e encantados.
Termino esta breve
descrição do “aniversariante” do dia, o sr. Saci, com uma citação do pesquisador
Sergio O. Russo:
Os sertanejos, caboclos e todos aqueles
que vivem nas matas são geralmente encarados pelos metropolitanos como ingênuos
ou mesmo supersticiosos.
Contudo, suas crendices, que falam em
mulas sem cabeças, saci-pererê e outros seres bizarros que se manifestam nas
matas, não seriam de todo desprovidos de alguma significação.
São inúmeras as lendas de nosso sertão
que falam a respeito de seres da natureza e outras entidades estranhas. Verdade
ou não, existe mesmo qualquer coisa!
(RUSSO, 1987)
O interior é rico em
histórias de assombrações e de criaturas fantásticas. Os caminhos ermos e as
matas são habitadas por seres sobrenaturais, que despertam na escuridão para trabalhar
(proteger a natureza), brincar ou para cumprir uma eventual sina, tarefa de
alma penada. O que estará por trás desse trabalho do saci, que parece ser, ao
mesmo tempo, seu grande lazer, que é perturbar as pessoas? Dar uma lição, para
que as pessoas não repitam suas eventuais transgressões? Chamar a atenção para uma
ideia de que não estamos sós neste mundo, que ele não é só nosso e que não
podemos dispor dele como bem entendermos, que há uma realidade além da matéria
com a qual temos que conviver ‒ e, consequentemente, uma vizinhança, a qual
precisa ser respeitada? Talvez, um pouco de cada coisa. Só o saci saberia
responder. Se você não quer ser assombrado por essas dúvidas, pergunte a ele.
Bibliografia:
CASCUDO, L. da C. Geografia dos Mitos Brasileiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1976.
CURRAN, B. Vampiros. São Paulo: Madras, 2008.
LOBATO, M. O Saci. 33. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
RUSSO, S. O. Monstros, Seres Estranhos e Criaturas Extraordinárias. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.


Comentários
Postar um comentário