O Poltergeist

 



Apesar de todo o avanço tecnológico conquistado nas últimas décadas, muita coisa permanece coberta por um véu de mistério. Ainda não se chegou a um consenso sobre o que é o Poltergeist ou o Fenômeno Poltergeist. Há divergências no seio do campo religioso e no da parapsicologia, áreas que atestam a veracidade do fenômeno, não o considerando, a priori, como farsa ou especulação. O fenômeno é pesquisado no mundo todo. No exterior, o assunto já foi objeto de análise do astrônomo Camille Flammarion (um dos primeiros a investigar casos de Poltergeist), dos escritores Conan Doyle e Colin Wilson e do parapsicólogo D. Scott Rogo, entre outros. No Brasil, todos os amantes do extraordinário devem agradecer à coragem e ao empreendedorismo de Hernani Guimarães Andrade, que criou o Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas, e ao pesquisador e escritor Sérgio O. Russo.

 

Vejamos, em primeiro lugar, o campo religioso. Para o espiritismo, por exemplo, o Poltergeist é apenas um adjetivo para qualificar a ação de espíritos inferiores, ainda muito ligados ou presos, por isso mesmo, ao plano terrestre ou dimensão dos vivos. São os famosos espíritos galhofeiros ou zombeteiros, personagens das histórias que nossos avôs e avós nos contavam na infância.

 

Se formos analisar a questão a fundo, procurando suas raízes, descobrimos que o assunto é bem anterior ao espiritismo, surgido nos EUA com as irmãs Fox. Salvo engano, o termo Poltergeist (espírito zombeteiro, em alemão) é também anterior às primeiras tentativas de se buscar uma explicação doutrinária ou científica para o fenômeno. Fenômenos semelhantes podem ser encontrados no folclore de diversos povos- assim como na mitologia- e a explicação dada, em muitos casos, é a de que se trata de uma manifestação de mortos. Os Poltergeist seriam os próprios mortos, que teriam a capacidade de sair de seus túmulos para perturbar e até agredir fisicamente os vivos, ideia que é uma das raízes do mito do vampiro moderno, construído por Bram Stoker, que se baseou em narrativas folclóricas- especialmente, as da Europa Oriental. Segundo o pesquisador Jacques Marcireau, o costume de se usar pregos, torniquetes e outras ferramentas para se lacrar os caixões é um recurso explicado pelo medo e que foi criado para tentar impedir que os mortos saíssem de seus túmulos para perturbar os vivos. Os recursos usados para destruir os cadáveres- como, por exemplo, a cremação- também teriam essa mesma intenção. É interessante notar que as primeiras manifestações de ritos funerários surgiram com os Homens de Neanderthal, que colocavam pedras em cima dos locais de enterramento. Talvez eles fizessem isso apenas como modo de marcar os locais de enterramento ou usassem as pedras como oferendas, mas, quem sabe, o ato de colocar pedras sobre as covas não sinalizasse o medo de um eventual retorno do morto?

 

Outra explicação, que aparece em Homero e que também pode ser encontrada no esoterismo egípcio, diz que tais manifestações são, na verdade, resíduos dos mortos, também chamados de sombras (shut, para os egípcios), fantasmas ou larvas astrais. Esses seres invisíveis, informes e incômodos são também conhecidos como demônios ou gênios da natureza- hobgoblins, por exemplo, no folclore anglo-saxão.

 

Quanto à parapsicologia, há duas correntes que buscam uma explicação para o fenômeno, sendo que ambas colocam o Poltergeist menos como causa do que como efeito. Na primeira, o fenômeno é provocado de modo inconsciente por um vetor, humano, na fase da puberdade, não importando o sexo. Assim, não há interferência externa e sobre-humana (ou infra-humana). O fenômeno seria uma espécie de condensação de forças emanadas pelo próprio indivíduo. Talvez um derrame de capacidades pouco conhecidas que ficam encerradas no subconsciente, provocado por retenção de energia reprimida ou mal canalizada. Na segunda corrente, é considerada a ação de um ou mais agentes externos (aqui entram os espíritos), que se valem dessa mesma energia- igualmente emitida sem consciência do emissor- para agir no plano material. A energia do vetor, portanto, é instrumento sem o qual as ações- telecinese, raps, materializações, parapirogenia etc- não podem ser executadas.

 

Em ambos os casos, o fenômeno é algo temporário, que cessa do mesmo modo como começou, de forma abrupta. Curiosamente, parece ocorrer uma espécie de enfraquecimento paulatino das ações: as manifestações vão ficando menos intensas e regulares até parar, de uma hora para a outra. Outro ponto em comum entre as duas explicações é a existência necessária de um vetor, pois, nos casos em que ele se afasta do local onde ocorrem as manifestações, elas sofrem uma pausa, prosseguindo tão logo o vetor retorne, bem como elas continuam em locais distintos, bastando que o vetor esteja presente- por exemplo, no caso de mudança de uma casa para outra; é como se o fenômeno seguisse a pessoa.

 

Cito um caso interessante que tem elementos dessas duas explicações, relatado por um familiar.

 

Nos anos 70, num município do Rio de Janeiro, uma família composta por um casal e suas duas filhas adolescentes começou a ser perturbada por acontecimentos estranhos: fortes pancadas nas paredes, portas, janelas e no telhado; objetos que se moviam como se estivessem sendo puxados por mãos invisíveis; objetos que sumiam do interior da casa e que reapareciam no quintal ou no telhado- numa das vezes em que a polícia foi chamada, a capanga do delegado, sua carteira e as chaves do carro da polícia sumiram da mesa onde estavam ele e o dono da casa, num breve momento em que se distraíram, indo parar no telhado, isso em questão de segundos- o delegado, até então, pensava como alguns vizinhos, ou seja, que tudo não passava de boatos. Ocorriam também pequenos incêndios em lençóis e roupas e o fato mais estranho: pedaços de carne apareciam na panela do arroz, em pleno cozimento- é uma pena que essa misteriosa carne não tenha sido recolhida para análise. Num caso ocorrido na Inglaterra, sangue aflorava do chão da cozinha, formando pequenas poças nos ladrilhos. Esse sangue foi analisado e foi constatada sua origem humana. Seria teleporte, esse material (tanto a carne desse caso, quanto o sangue do outro) teria se desintegrado em algum ponto, vindo a se reintegrar na casa? Ou teria sido fabricado, criado? Nesse caso, a partir de quê?

 

Já em seus limites e sem saber o que fazer ou a quem recorrer, a dona da casa, aconselhada por uma amiga, foi a uma sessão de centro de mesa, na qual um médium chamava por um nome: caso a pessoa chamada estivesse presente, ele transmitia os eventuais recados que os espíritos tinham a dar para essa pessoa em particular. O nome da dona da casa foi chamado- não tinha como ocorrer coincidência ou confusão, pois o nome dela é incomum- e o médium relatou, para o espanto dela, com precisão, tudo o que estava acontecendo, revelando ainda que o espírito que vinha provocando todos os incidentes estava ao seu lado e era o de um marginal (quando vivo), cujos ossos haviam sido retirados de um cemitério e enterrados no quintal da casa por uma vizinha, que odiava aquela família e que queria destruí-la. De fato, uma ossada foi retirada do quintal, levada de volta para o cemitério e enterrada de acordo com os padrões e ritos convencionais. Além disso, uma missa foi rezada em nome do tal espírito. Os fenômenos pararam. Mesmo assim, a família mudou-se para outra casa, colocando a antiga, que foi palco dos assustadores fenômenos, à venda. Até o momento em que a família se mudou para a capital, a casa permanecia abandonada, e assim continua, até hoje, passados mais de 40 anos.

 

Bibliografia:

 

ANDRADE, H. G. Você, o Poltergeist e os Locais Mal-Assombrados. São Paulo: Didier, 2006.

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BRUNTON, P. As Origens do Egipto. Portugal: Bertrand, 1978.

DUBUGRAS, E. Fronteiras do Desconhecido. In: O Assunto é, n. 4. São Paulo: Três, 1985.

FLAMMARION, C. As Casas Mal-Assombradas. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

MARCIREAU, J. Ritos Estranhos do Mundo. Portugal: Difel, 1975.

ROGO, D. S. A Inteligência no Poltergeist. São Paulo: Ibrasa, 1995.

ROGO, D. S. The Haunted Universe. New York: The New American Library, 1977.

RUSSO, S. O. Monstros, Seres Estranhos e Criaturas Extraordinárias. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.

STOKER, B. Drácula. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

WILSON, C. Mysteries. London: Grafton Books, 1979.

WILSON, C. Poltergeist. St. Paul, Minnesota: Llewellyn Publications, 1993.

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